NATAL UCRANIANO: COSTUMES, TRADIÇÕES E SIGNIFICADOS

Neste artigo, procura-se apresentar de forma sucinta as tradições, os significados e os costumes dos ucranianos, desde a questão da data, do significado dessa festa tão popular em todo o mundo, enfatizando a preparação esmerada e a própria celebração, ao mesmo tempo muito divina e muito humana, mas também muito bela e rica nos seus detalhes, até a importância cultural e teológica da preservação dessas tradições na sociedade contemporânea já bastante secularizada.

1. DATA DA CELEBRAÇÃO DO NATAL NO RITO BIZANTINO UCRANIANO

Na Igreja Católica Ucraniana no Brasil, que segue o calendário gregoriano, o Natal é celebrado no dia 25 de dezembro. Seguindo o calendário juliano, os ucranianos ortodoxos celebram o Natal no dia 6 de janeiro. Embora a diferença de calendário, os costumes e tradições, tanto religiosas como populares, são mantidos por ambos, com muito respeito. O Natal ucraniano é uma festa muito rica, constituída de vários costumes populares e religiosos que engrandecem e enaltecem o acontecimento.

2. SIGNIFICADO DA FESTA NATALINA

Podemos captar o significado da festa pela visão teológico-litúrgica e pela visão iconográfica.

2.1 – Significado teológico-litúrgico

Depois da Páscoa, o Natal é a festa mais querida de todos os fiéis das Igrejas orientais, caracterizada por uma alegria espiritual e por uma hinografia excepcionalmente rica e bela. A seguinte denominação litúrgica, solene e longa, traduz fielmente a essência da festa natalina: “Nascimento segundo a carne do Senhor, Deus e Salvador nosso Jesus Cristo”. Teológica e liturgicamente, a festa de Natal é a celebração da vinda da segunda pessoa da Santíssima Trindade, o Filho de Deus, Jesus Cristo, que veio ao mundo para salvar a humanidade, redimindo de todo o mal e de todo o pecado, divinizando-a. É o próprio Deus que se torna pequeno, humano ou humanizado, para nos tornar grandes, divinizados, próximos de Deus. Não somente o ser humano é salvo e divinizado, mas também o cosmos, a natureza.

2.2 – Significado iconográfico

O significado da festa natalina é visual e sensivelmente compreendido, quando se contempla algum ícone do Natal. Em geral, a composição iconográfica natalina traz os seguintes elementos principais:

  1. no meio do ícone se encontra uma gruta escura, símbolo do mal, onde está depositado o recém-nascido Jesus Cristo, a verdadeira luz para o mundo;
  2. as faixas que o envolvem relembram as faixas mortuárias das quais sairá o Ressuscitado, sendo idênticas também as palavras que as descrevem;
  3. um único raio de luz, único como é Deus, saindo da estrela, torna-se tríplice, em evidente alusão à Trindade, e desce sobre a Mãe e o seu Filho;
  4. no alto à esquerda, dois anjos estão em adoração;
  5. mais embaixo os três Magos, montados em cavalos, dirigem-se rumo ao Salvador;
  6. mais embaixo ainda, está José pensativo, talvez num momento de tentação: dúvidas sobre a virgindade de Maria;
  7. a cena do banho indica que o pequeno Jesus Cristo possui verdadeiramente a natureza humana e contemporaneamente alude ao batismo, pois a bacia batismal tem a forma de pia batismal;
  8. no lado oposto, outro anjo dá o anúncio aos pastores e, no meio, junto ao recém-nascido, está a Mãe de Deus deitada sobre panos. Habitualmente, ela está voltada para o contemplador, “meditando no seu coração” (Lc 2,51b) o conjunto do mistério da salvação em que ela, flor da humanidade, representou a nós todos dando seu consentimento à encarnação e tornando-se a mãe de todos nós, permanecendo virgem. As três estrelas que ornam o seu manto indicam a sua virgindade (Cf. M. M. Donadeo, O Ano Litúrgico Bizantino, Ave Maria, São Paulo, 1998, pp. 47-48).

3. PREPARAÇÃO PARA A CELEBRAÇÃO

Duas práticas se destacam na preparação dos fiéis ucranianos para a celebração da Festa de Natal: a Pelêpivka e a Festa de São Nicolau.

3.1 – Pelêpivka

A festa do Natal é precedida por um período de preparação, que se inicia no dia 14 de novembro pelo calendário gregoriano, com a festa do Apóstolo São Felipe – Pelêp em ucraniano. Por isso, esse tempo litúrgico é chamado de Pelêpivka. É um período de oração mais intensa, reflexão, jejum e penitência, na espera do tão esperado hóspede, o Filho de Deus.

3.2 – Festa de São Nicolau

Durante este tempo de preparação para o Natal, um momento importante é a celebração da Festa de São Nicolau, no dia 6 de dezembro, pelo calendário gregoriano. São Nicolau é um dos santos mais populares na Ucrânia e entre os ucranianos dispersos pelo mundo, embora seja natural do Oriente Médio (cidade de Esmirna, hoje na Turquia). Bispo da Igreja, sempre se destacou pelas suas obras de misericórdia e amor fraterno ao próximo, fazendo com que seus gestos fraternos tocassem profundamente os corações. Por isso, sua figura se imortalizou no culto, na iconografia e na liturgia. Entre os ucranianos, ele é considerado o patrono dos agricultores e defensor dos animais. Porém, acima de tudo, é o patrono das crianças.

No dia de São Nicolau, costuma-se realizar a troca de presentes entre as pessoas, e presentear, de um modo especial, as crianças. Ele é representado em suas vestes de Bispo oriental, uma pessoa idosa, meiga e carinhosa para com as crianças. Geralmente, é acompanhado pelos anjos, que trazem os presentes a serem distribuídos. Representa a bondade, a generosidade, o bem. Na representação de São Nicolau aparece também a representação do mal, através de uma pessoa mascarada que representa a tentação, o vício, a desordem, o pecado; geralmente é vestida como um demônio. No diálogo com as crianças, as perguntas dirigem-se em forma de um questionário sobre o bem que elas praticaram ou podem praticar. O presente é a recompensa pelo bem praticado.

No Ocidente, São Nicolau foi substituído pela figura do Papai Noel, tendo, infelizmente, uma conotação mais comercial do que religiosa.

4. CELEBRAÇÃO DO NATAL

A própria celebração de Natal inclui a preparação do ambiente caseiro, ou seja, a propriedade e a casa como tal, a Santa Ceia, com seus ricos detalhes rituais e culinários, e a celebração da Divina Liturgia, a partir da qual as festividades natalinas continuam muito animadas nas famílias e nas comunidades paroquiais.

4.1 – PREPARAÇÃO DO AMBIENTE CASEIRO

4.1.1 – Preparação da propriedade

No interior, como nós costumamos dizer “nas colônias”, o dono da casa deve cuidar da sua hospodárka, a propriedade, procurando fazer a limpeza de todos os espaços e cantos, alimentar bem os animais, pois eles também fazem parte da realidade da casa.

4.1.2 – Preparação da casa

A dona de casa, a mãe, quando possível auxiliada pelas filhas, com muita alegria e dedicação, faz a limpeza da casa: tudo deve estar bem asseado para a visita dos familiares, pois juntos estão à espera do hóspede maior. Ela deve se ocupar dos pratos do ritual que serão consumidos durante o jantar sagrado – a Santa Ceia.

4.1.3 – Preparação da árvore de Natal

Prepara-se a ialênka – árvore de Natal com uma estrela de bom tamanho e bem visível em cima. A árvore sempre indica para o alto e a estrela indica o caminho; assim, como foi para os magos do Oriente, ela nos guia para o Deus que vem e que estará presente entre nós, porque Ele é o Emanuel – Deus conosco. A árvore é enfeitada com vários adornos, entre estes, os doces, que serão depois apanhados por todos e consumidos. São dádivas, presentes de Deus derramados sobre a humanidade por meio do Filho Jesus.

A casa, sobretudo a fachada, é adornada com luzes, e um pequeno presépio é montado na sala, conforme as tradições locais, o gosto e possibilidades financeiras das famílias.

4.1.4 – Preparação da mesa natalina

A mesa da ceia natalina é especialmente forrada com o feno, coberto depois com a toalha bordada. Representa a manjedoura onde será colocado o Menino. Como a mesa farta, assim também o Filho de Deus trará as bênçãos para todos na família. Ele deve ser acolhido com o calor humano das pessoas, no relacionamento familiar, na unidade e bem-estar. Costuma-se colocar sobre a mesa um castiçal de três velas que simbolizam a Santíssima Trindade.

No assoalho, sob a mesa, coloca-se a palha de trigo, junto com os instrumentos do trabalho do campo: o machado, a enxada, o serp (instrumento para a colheita do trigo), entre outros. São ali colocados, pedindo, para que em toda a propriedade estejam presentes as bênçãos de Deus.

4.2 – CELEBRAÇÃO DA SANTA CEIA

4.2.1 – Reunião da família

Um significado todo especial para a véspera de Natal entre os ucranianos é a realização da Santa Ceia. Ela encerra o período da Pelêpivka, lembrando que na véspera, na própria Santa Ceia, ainda se faz jejum, pois, além do peixe, não devem ser consumidas outras carnes.

É a festa da família, quando todos se reúnem para a ceia, respeitando um ritual todo especial. Ao entardecer, todos os membros da família devem estar reunidos.

A Santa Ceia, por sua natureza altamente evangélica e celebrativa, é uma excelente oportunidade de confraternização familiar e comunitária. Na sociedade contemporânea, que se caracteriza pela mobilidade social, devido ao trabalho e estudo dos membros da família, o que os fazem se distanciar por longos períodos, a celebração do Natal, na família e depois na igreja, propicia o encontro ou reencontro de familiares e amigos.

4.2.2 – Cerimonial do didúkh

Quando todos já estão reunidos, o hospódar – dono da casa traz o didúkh – um feixe de trigo para dentro da casa, que representa os antepassados, os falecidos, bem como a fartura, a boa colheita, o progresso, o bem-estar das pessoas. O didúkh é trazido para dentro de casa num ritual sagrado e, com muito respeito, é colocado em um lugar de destaque, anteriormente preparado.

4.2.3 – Oração

A ceia está pronta. Ela deve ser servida quando a primeira estrela aparecer no céu. No início, o dono da casa convida a todos para a ceia. Todos devem estar presentes. Fazendo a oração pela família, o hospódar – dono da casa – saúda a todos com as palavras: Khrestós Rodêvcia! – Cristo nasceu! Todos respondem: Slavimo Iohó – Glorifiquemo-lo. Em seguida, o hospódar serve para todos os presentes um pequeno pedaço de pão embebido no mel, gesto que significa: que a vida familiar seja sempre alegre, unida, vivida no bem-estar humano e espiritual.

Em algumas regiões da Ucrânia e em algumas famílias aqui no Brasil, o dono da casa convida para a ceia também as “tempestades, as enchentes, o granizo, as geadas, os ventos”. Espera-se em silêncio. Como não se ouve a resposta, o dono da casa responde: “Como as tempestades, as enchentes, o granizo, as geadas, os ventos, não foram dignos de aceitar o nosso convite para a ceia, que também não apareçam durante o ano, quando não convidados”.

4.2.4 – Ceia de doze pratos

Em seguida, serve-se a ceia, composta de doze pratos. A ceia deve ser preparada com produtos não gordurosos que possam representar a água, o ar e a terra, pois ainda nos encontramos no período da Pelêpivka. Ela se encerra somente à meia-noite, quando da participação de toda a família na Divina Liturgia na igreja da comunidade.

No passado pagão, os 12 pratos representavam os doze meses do ano; no cristianismo, os doze apóstolos, discípulos do Divino Mestre que anunciam a sua mensagem. Cada cristão deve anunciar o bem, testemunhando a doutrina do Divino Mestre Jesus.

Eis alguns dos pratos que devem ser servidos:

  1. Kutiá: grãos de trigo cozido adoçado com mel, passas de uvas e outras frutas, nozes ou castanhas e sementes de papoula. O trigo representa a fartura, o progresso, o bem-estar. O mel transmite a ideia de que a vida deve ser temperada com a alegria da saúde, do bem-estar, na amizade, paz e unidade familiar. Simboliza o trabalho do agricultor e das abelhas. Também representa os entes queridos que faleceram, criando um elo entre os vivos e os mortos.
  2. Borchtch: sopa de beterraba e repolho, servida com pão de centeio.
  3. Mlêntsi ou Nalésneke: um tipo de panqueca.
  4. Varénneke: espécie de pastel, tipo ravióli, que antigamente era recheado com repolho, trigo-sarraceno (mourisco), ameixas, geleias ou sementes de papoula. Na região da Galícia, Ucrânia Ocidental, é chamado de períh, enquanto na Ucrânia Oriental períh é uma espécie de pãozinho branco assado no forno contendo algum recheio. Embora o recheio de batata com requeijão tenha-se tornado popular entre nós, na ceia de Natal era raramente usado, uma vez que para nossos ancestrais, há centenas e centenas de anos, a batata era desconhecida, chegando à Ucrânia somente por volta dos séculos XVII e XVIII.
  5. Holubtsí: rolinhos de repolho, uma espécie de charuto, com trigo-sarraceno, cebola e cogumelos, enrolado com folha de repolho. É cozido no vapor ou em banho-maria. Na Ucrânia, são preparados com folhas de repolho em conserva, por causa da neve, sendo que em outras estações do ano são usadas folhas frescas de repolho ou de beterraba.
  6. Krejalkê: espécie de repolho cozido, temperado com água, sal e iguarias.
  7. Peixe em conserva.
  8. Várias espécies de pão, biscoitos de mel.
  9. Kácha: espécie de cevada moída, preparada com iguarias.
  10. Hrebê: espécie de cogumelos cozidos, preparados em forma de salada ou em forma de molho, para serem consumidos com os demais pratos.
  11. Kalatch ou Kolatch: pão doce; em algumas regiões, com recheio de doces de frutas. O pão representa a colheita do ano e é adornado com uma vela que iluminará a mesa e deve permanecer sobre a mesma durante três dias.
  12. Kómpot ou Úzvar: compota feita das mais variadas frutas guardadas em conserva desde o verão: cereja, ameixa, pera, maçã, uva. Em algumas regiões, é preparada com bastante calda, de forma que pode ser usada também como suco, substituindo as bebidas alcoólicas.Podem ser servidos outros pratos: kapusniák: sopa de repolho; perijkê: pasteizinhos assados recheados com repolho ou com doces de frutas; pepinos e outros mais (cf. http://www.ecclesia.com.br).

4.2.5 – Cantos natalinos

Durante a ceia entoam-se os cantos natalinos chamados de Kólhade. Em melodias harmoniosas e fáceis, eles descrevem, de uma forma singela e às vezes até ingênua, o nascimento do Menino Jesus. As composições atuais já são mais elaboradas do ponto de vista do conteúdo bíblico e teológico.

A alegria deve ser contagiante neste momento da ceia. Cada um saúda os presentes, iniciando uma Kólhada. Elas continuam até o final da ceia. É comum em muitas famílias deixar preparado um lugar a mais durante a ceia. Este lugar pode representar algum familiar ou amigo que não tem a possibilidade de estar festejando o Natal em uma família, bem como representar aqueles que passaram desta terra para a eternidade: eterna é a lembrança deles entre todos.

4.3 – CELEBRAÇÃO DA DIVINA LITURGIA

4.3.1 – Encerramento da Santa Ceia

Quando todos terminam a ceia, saem para a participação da Divina Liturgia na igreja da comunidade. Nada se retira da mesa. Ela deve permanecer assim, pois a crença diz que os “ausentes” virão tomar a sua parte na refeição da ceia.

4.3.2 – Igreja adornada

O ícone do Natal é solenemente exposto no meio da igreja, sobre o proskinetárion, durante a celebração vesperal do dia 24 e ali permanece até o dia 31 de dezembro.

Geralmente, nas igrejas, imitando a tradição ocidental, são montados grandes presépios e árvores de Natal.

4.3.3 – Celebração da Divina Liturgia

Antes de iniciar a Divina Liturgia, canta-se o canto do Z náme Boh – Deus conosco, tirado do Ofício Divino.

Durante a celebração litúrgica, ouvem-se muito as canções natalinas – kólhade. Todos cantam e saúdam-se mutuamente com a saudação típica para a festa do Natal: Khrestós Rodêvcia! – Cristo nasceu! Todos respondem: Slavimo Iohó – Glorifiquemo-lo. As canções natalinas são entoadas nas igrejas, nas comunidades religiosas e nas famílias até o dia 2 de fevereiro, segundo o calendário gregoriano, Festa do Encontro (Hypapántê) de Nosso Senhor, Deus e Salvador, Jesus Cristo, também conhecida como Festa da Apresentação do Senhor.

4.3.4 – Grupos de cantores

Após a celebração na igreja, grupos de pessoas chamados de kolhadnekê, geralmente homens, mas também jovens, adolescentes e crianças, organizam-se para visitar as famílias e saudá-las com o canto das Kólhade. Levam consigo uma estrela grande feita de soloma – palha de trigo e também um vertép – presépio.

Os grupos vão de casa em casa e as famílias os recebem com muita alegria. São saudadas pelos cantores. Nesta saudação, deseja-se o bem-estar para todos os membros da casa e também às visitas, o progresso humano e espiritual, a saúde, a boa colheita. Geralmente, estes cantores são recompensados, não apenas com as guloseimas costumeiras especialmente preparadas para a festa de Natal, mas também com uma recompensa financeira, que é destinada ao bem da igreja, para a sua manutenção ou alguma finalidade específica, ou para a comunidade.

5. IMPORTÂNCIA DA PRESERVAÇÃO DAS TRADIÇÕES NATALINAS UCRANIANAS

A preservação dos costumes e tradições ucranianas é muito importante não somente para a própria etnia ucraniana, que continua a cultivar seus valores específicos, a cultura e identidade, mas também a outros grupos étnicos existentes em nosso país pluriétnico e pluricultural. Tal preservação reforça a valorização das minorias étnicas com suas riquezas culturais, propiciando o enriquecimento mútuo, além de engrandecer o povo e a nação brasileira, que tão aberta e generosamente recebeu milhares de imigrantes vindos de várias partes do globo terrestre, desde os japoneses e italianos, recebendo também os alemães e holandeses, até os poloneses e ucranianos.

A partilha é muito rica e variada e vai da culinária, passando pelo folclore e chegando até os valores da moral e da espiritualidade, esta emanando principalmente das ricas tradições litúrgicas e religiosas. Observando tudo isso a partir de uma visão sintetizadora, percebemos a unidade na diversidade. É um belo jardim com as mais diversas flores, com suas cores e perfumes.

Preservar essa riqueza significa ajudar a frear a secularização galopante, fazendo um resgate apropriado do sagrado; não no sentido de menosprezar a dimensão da realidade profana, compreendida como não pertencente à realidade sacra, ou eliminar a autonomia do humano; mas no sentido de trazer mais harmonia e integração existencial, social, comunitária e familiar. No caso do Natal ucraniano, nota-se um modo mais condizente com o espírito cristão de realizar as celebrações natalinas, fazendo frente a uma sociedade materialista, consumista, egoísta e individualista.

O Ocidente destaca a ternura do Menino Jesus, enquanto o “Oriente gosta mais de considerar o Mistério de Deus, o qual, descendo dos céus, se inclina para a terra, e assume uma natureza a ele estranha para socorrer o homem decaído” (G. Gharib, Le icone festive, Anocra, Milano, 1985, p. 90). A teologia patrística oriental concentrou seu pensamento na divinização, que já vinha sendo trabalhada desde o século II, principalmente por Santo Irineu. Ele resumiu magnificamente o princípio fundamental da divinização: “Deus se fez filho do homem a fim de que o homem pudesse ser filho de Deus”. Assim, o ensinamento dos Santos Padres Capadócios Basílio Magno, Gregório Nisseno e Gregório, o Teólogo sobre a divinização foi aceita e desenvolvida em todo o Oriente cristão. Deus se tornou humano para que nos tornássemos divinos! A vivência cristã oriental conduz a uma integração mais equilibrada das diversas dimensões do existir humano e social, colocando tudo no âmbito da santificação ou divinização. Tudo deve ser tocado e divinizado pela presença de Deus no menino Jesus.

Celebremos, pois, dignamente o Natal e estaremos mais próximos da fonte da vida, salvação e santidade! Boas festas. Khrestós Rodêvcia! – Cristo nasceu! Slavimo Iohó – Glorifiquemo-lo.

Dom Volodemer Koubetch, OSBM

Extraído do Boletim Informativo Eparquial No. 37 
de Novembro/Dezembro-2012
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