» A Igreja Ortodoxa sob as ocupações da Ucrânia

Por: Protopresbítero Nicolas Milus

A Igreja de Cristo, na maioria dos casos, dependia da hierarquia existente no território da Ucrânia e das ocupações a que foi submetida. Lutava pela independência do povo e este, de seu lado, lutava também pela independência da Igreja. Assim, no período da ocupação mongol (1240-1363 d.C.), o metropolita de Kyiv, Cirilo II – (1243-1280 d.C.) transferiu em 1250 a sua residência para a cidade de Volodymyr (Vlademir), às margens do rio Klazma, e depois para Moscou, e o povo da Ucrânia ficou sem hierarquia.

Por falta de metropolita em Kyiv, o Patriarca de Constantinopla criou em 1302 a Metropólia de Halytch, na Galícia, mas esta Metropólia deixou de existir no ano de 1389 d.C, porque o Patriarca de Constantinopla transferiu sua sede para Moscou.

No ano de 1363 o território da Ucrânia foi ocupado por Olguerd, príncipe lituano.

No ano de 1458, durante a ocupação lituana, foi restaurada a Metropólia de Kyiv.

A Divisão da Igreja Ortodoxa Ucraniana

No ano de 1569 d.C. aconteceu a união da Lituânia com a Polônia, pelo tratado de Lublin, e as terras da Ucrânia passaram para domínio polonês. Em 1596, sete anos depois, portanto, quando a grande separação Ocidente/Oriente já durava 542 anos, na cidade de Brest-Litovsk em terras ucranianas sob ocupação polonesa, num concílio convocado pelo rei da Polônia Segismundo III, pelo tratado de Brest a Igreja Ortodoxa Ucraniana também foi dividida em duas: 1) A Igreja Ortodoxa Ucraniana, sob a jurisdição de Constantinopla e 2) a Igreja greco-católica ucraniana, que se uniu a Roma e até hoje permanece sob a sua jurisdição.

Como a Igreja Ortodoxa ucraniana começou a ser perseguida pelos poloneses e sendo-lhe proibida a consagração de novos bispos, no ano de 1620 d.C, a convite do kozakos da Zaporíjjia, o Patriarca Teófano, de Jerusalém fez uma visita à Ucrânia, durante a qual foi renovada, clandestinamente, a hierarquia da Igreja Ortodoxa na Ucrânia.

De 1649 a 1659 d.C a Igreja Ortodoxa Ucraniana gozou de plena liberdade durante o governo do hethman Bohdan Khmelnytzkyj e do hethman Iván Vyhovshkyj. Em 1686, por decisão de Dionísio, Patriarca de Constantinopla, foi ilegalmente subordinada a Igreja Ortodoxa de Moscou.

A Igreja Ortodoxa Ucraniana  (Sobornopravna)

Só depois de 235 anos de perseguição e submissão à Igreja Ortodoxa Moscovita (Russa), após a revolução Bolchevique (1917-1918), a Igreja Ortodoxa Ucraniana recuperou a sua autocefalia (isto é, independência hierárquica).

A proclamação da Autocefalia aconteceu num concílio realizado em outubro de 1921, quando foi proclamada a Igreja Ortodoxa Autocefálica Ucraniana e foram eleitos como Metropolita o Protopresbítero Wasyl Lypkivshkyi e, como Arcebispo, o Padre Nestor Scharanshkyi. Estes, por sua vez, consagraram novos bispos, entre os quais o Arcebispo Ioan Teodorovytch, que após sua consagração foi enviado ao Canadá e elevado primeiramente a Metropolita da Igreja Ortodoxa Ucraniana no Canadá, tornando-se mais tarde Metropolita da Igreja Ortodoxa Ucraniana nos Estados Unidos da América do Norte e, finalmente, de toda a Igreja Ortodoxa Autocefálica Ucraniana na América do Sul. Três anos depois, a Igreja Ortodoxa Autocefálica Ucraniana (chamada “Sobornopravna”, isto é, “Regida pelo Concílio” – sua autoridade máxima) – Já contava com 30 bispos, 1657 sacerdotes em seu clero e cerca de 2000 paróquias. O regime vigente (comunista) não favorecia, porém, o seu desenvolvimento voltando a ser perseguida em seu pleno apogeu, entre 1936 e 1937. Durante esta perseguição, foram fuzilados 30 bispos, 1200 sacerdotes e centenas de milhares de fiéis. Igrejas foram saqueadas, destruídas ou transformadas em depósitos, museus ou salas de concertos. Deste modo foi que a Igreja Ortodoxa Autocefálica Ucraniana foi destruída pelo governo comunista-ateu no território da República Socialista Soviética da Ucrânia.]

A Igreja Ortodoxa na Polônia (1919-1939)

Antes de falarmos sobre a Igreja Ortodoxa na Polônia, é necessário que lembremos alguns acontecimentos anteriores que constitui aspectos do contexto:

  • Os Eslavos, sob pressão da invasão dos Avaros (568-803), começaram a expandir-se para o oeste, sul, norte e leste.Entre os anos 850 e 1050, começaram a expandir-se para o oeste, sul, norte e leste.
  • Entre os anos 850 e 1050 começaram a surgir como entidades organizadas os estados eslavos.
  • A Polônia surge historicamente como estados nos tempos de Mieszko I (960-992).
  • No ano de 966 a Polônia foi convertida para o Cristianismo católico de rito romano.
  • No ano de 1569, em Lubelsk, foi assinado o tratado de união entre a Polônia e a Lituânia, de acordo com o qual quase todas as terras da antiga Rush de Kyiv, incluindo as terras da Volínia e da Galícia, foram anexadas por esta União.No ano de 1772, 1793, 1795 aconteceram as divisões da Polônia entre a Prússia, Rússia e Áustro-Húngria.
  • Após a terceira divisão, a Volínia e a Galícia foram anexadas ao Império Áustro-Húngaro.
  • As terras restantes da ex-Rush de Kyiv (Malarush foram anexadas ao Império Russo.
  • Como conseqüência do conflito entre a Rússia e a Áustria-Hungria (1914-1917), estourou a I Guerra Mundial, que terminou em 11 de novembro de 1918.
  • Após a I Guerra Mundial começaram a surgir novos estados, entre os quais também surgiu a Ucrânia, que proclamou sua independência em 22 de janeiro de 1918.
  • Surgiu também a Polônia que proclamou sua independência em 11 de novembro de 1918.

No entanto, a independência da Ucrânia terminou no ano de 1920 com a ocupação do bolcheviques. Pela decisão do Conselho de Embaixadores da Grã-Bretanha, França, Itália e Japão, a Vilínia, Políssia e Galícia foram anexadas à Polônia em 15 de março de 1923. Nessas terras anexadas à Polônia viviam mais de 4.000.000 de cristãos ortodoxos. Deles, 70% eram ucranianos, 28% bielorussos e russos, e 2% eram tchecos ou outros. Os ortodoxos ucranianos, encabeçados pelos bispos Dom Iúriy Iaroszewskyj e Dom Dionísio Waledynskyj, solicitaram a Sua Santidade Tykhon, Patriarca de Moscou que outorgasse à Igreja Ortodoxa na Polônia a Autocefalia, sendo-lhes negado tal pedido. Em 08 de fevereiro de 1923 o Metropolita foi assassinado por um fanático, simpatizante do Patriarca de Moscou. Assim, Dom Dionísio o sucedeu como Metropolita.

A hierarquia da Igreja Ortodoxa na Polônia, com o apoio do governo da Polônia, dirigiu-se então a sua Santidade Kirios Gregório IV, Patriarca de Constantinopla, pedindo-lhe que outorgasse Autocefalia à Igreja Ortodoxa na Polônia. Sua Santidade Kirios Gregório IV, pelo seu Tomos (Decreto, Lei) de 13 de novembro de 1924 e com a aprovação de 12 Metropolitas das Igrejas Ortodoxas, concedeu a Igreja Ortodoxa na Polônia a Autocefalia, tornando-a a partir de então independente do Patriarcado de Moscou. Em 10 de abril de 1932 Oleksyi Hromadskyi (ucraniano) foi consagrado arcebispo da região da Volínia e, Policarpo Sikorskuj (também ucraniano) para bispo de Lutzk. Em 01 de setembro de 1939, a Polônia foi dividida e ocupada pelos exércitos da Alemanha e da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). No dia 22 de junho de 1941, teve início a guerra entre a Alemanha e a URSS e, com o advento da II Guerra Mundial, as terras da Ucrânia foram ocupadas pelas tropas alemãs nazistas.

Começava então outros tempos.

A Igreja Ortodoxa Autocéfala Ucraniana de 1939-1945

Primeiro Período (1939-1941)

No dia 01 de setembro de 1939, teve início a guerra entre a Alemanha nazista e a Polônia. A Polônia foi invadida pelos exércitos da Alemanha e, 16 dias após, também pela União Soviética, de acordo com o pacto secreto firmado entre Hitler e Stálin. As terras da Volínia, Políssia e Podília ficaram sob a ocupação da união Soviética. Todos os ortodoxos destas terras deviam submeter-se ao Patriarcado de Moscou. As terras de Kholm e Pidiássia ficaram sob o domínio da Alemanha.

A Igreja Autocéfala existia com certas limitações, mas podia praticar a vida religiosa. Foram consagrados: o Prof. Ivan Ohienko em 20 de outubro de 1940, com o nome de Dom Ilarião, bispo de Kholm e Pidliássia, e Petró Vydybida-Rudenko em 09 de fevereiro de 1941 com o nome de Dom Paládio, bispo de Kráiv e Lemkivshtchyna. Os ortodoxos em geral,  os Ucranianos ortodoxos em especial começaram lentamente a reorganizar a sua vida religiosa.

Segundo Período (1941-1945)

No dia 22 de junho de 1941, o exército alemão, por ordem de Hitler, atacou a União Soviética e com seu “Blitzkrieg” (guerra relâmpago), em pouco tempo ocupou as terras da República Socialista Soviética da Ucrânia. Em agosto, Dom Dionísio enviou então uma mensagem aos hierarcas Dom Alexander (Inozemtzev), Dom Policarpo (Sikorskyi) e Dom Olesksa (Hromadskyi) e a toda a população ortodoxa restabelecendo a Igreja Ortodoxa nas terras ocupadas pelas tropas alemãs.

No dia 18 de agosto, no entanto, Dom Oleska apoiado pelos bispos submissos ao Patriarcado de Moscou, convocou um Concílio, no qual confirmaram sua obediência ao mesmo criando assim a  “Igreja Ortodoxa Autônoma”, separando-se assim da comunhão da Igreja Ucraniana Este Concílio provocou a divisão da Igreja Ortodoxa em terras ucranianas.

Em dezembro deste mesmo ano, na cidade de Rivne, na Volínia, em reunião dos hierarcas da Igreja Ortodoxa Autocéfala e representantes dos ortodoxos ucranianos, decidiu-se nomear Dom Policarpo como Administrador da Igreja Ortodoxa Autocéfala Ucraniana e consagrar novos bispos para que ordenassem novos padres e assim pudessem levar  auxílio espiritual à população, após muitos anos de perseguição ateísta.

Nos dias 09 e 10 de fevereiro de 1942, foi convocado, na cidade de Pinsk, um Concílio, no qual foram escolhidos e consagrados dois bispos auxiliares de Dom Policarpo, criando a Igreja Ortodoxa Autocefálica Ucraniana. Estes auxiliares de Dom Policarpo convocaram um Concílio em Kyiv, de 09 a 17 de maio de 1942, no qual foram eleitos e consagrados mais 6 novos bispos. Até o final de 1942 foram consagrados mais 3 novos bispos, permitindo assim a ordenação de novos padres que ocuparam, até o final de 1942, as mais de 1000 paróquias renovadas ou recém-formadas.

No início de 1943, o comissário Nazista Alemão Erik Koch proibiu: 1) convocar concílios, 2) consagrar bispos e 3) nomear padres para as paróquias sem autorização explícita dos comissários regionais. Em final de 1943, com a aproximação do exército comunista, hierarcas da Igreja Autocefálica Ucraniana abandonaram a Ucrânia em sua maioria e, no início de 1944, com o auxílio de Dom Mstyslav (Skrypnyk), partiram em comboio para o Oeste. Os bispos e sacerdotes que vieram da Alemanha foram proibidos de atender ou dar auxílio espiritual aos ortodoxos ucranianos. Em 9 de maio de 1945 a Alemanha Nazista deixou de existir.

Após a Segunda Guerra Mundial os Ucranianos Ortodoxos emigraram para outros países, entre eles o Brasil.

Bibliografia:

  • Antin Kusczynskyj: “Korotka Ukrainkoi Tzerkvy”. Chicago – 1971.
  • Atlas da História do Mundo. Folha de São Paulo – 1995.
  • Martyrology of UkranianChurch – Toronto – Baltimore – 1987.
  • Prof. Demétrio Doroshenko: “História de Ucrânia”. RCU, Buenos Aires -1962.
  • Rev. N. Pliczkowski: “A Short of the UkranianOrthodox Church”.
  • Adelaide – 1988. Sínodo da I.O.A.U. na Diáspora. Muenchen – 1947.