» Bravos da Ucrânia

Por: Maria Luiza Andreazza*

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Isolados, entregues à própria sorte, ucranianos que chegaram ao Brasil no final do século XIX conseguiram superar adversidades e imprimir sua marca cultural no Sul do país.

Na luta diária pela sobrevivência nas florestas brasileiras, todo cuidado era pouco. Além do desamparo do governo, do risco de doenças e ataques de índios, os imigrantes ucranianos – também conhecidos como rutenos – buscavam se proteger contra bruxas, demônios e lobisomens. Para afastá-los, erguiam casas com quartos voltados para o leste, queimavam ramos bentos e mantinham lamparinas acesas em quartos de recém-nascidos. Tais medidas constituem uma amostra das precauções tomadas por essa população rural e apegada a tradições que se fixou no Paraná e parte em Santa Catarina, em fins do século XIX.

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Entre 1880 e 1914 mais de 45 mil ucranianos oriundos da Galícia oriental – então a maior e mais pobre província do império austro-húngaro – se estabeleceram no Brasil. A vinda dessas pessoas foi motivada em grande parte por problemas econômicos. Ao longo do século XIX, o leste europeu forneceu grãos para a Europa. No entanto, o aumento da produtividade e da circulação de produtos agrícolas na década de 1890 gerou oferta excessiva e conseqüente queda dos preços. Essa reação do mercado fez com que vários camponeses ucranianos buscassem oportunidades em outras terras. Cerca de 20 mil vieram para o Brasil de 1895 a 1897. Desse total, 350 famílias foram encaminhadas para uma colônia no sul do Paraná chamada Antônio Olinto, em homenagem ao então ministro da Viação da República.

Assim como outros terrenos comprados por imigrantes, o local destinado à fundação de Antônio Olinto era inóspito e distante dos centros urbanos. Como os pecuaristas se opunham ao estabelecimento de núcleos populacionais em terras apropriadas à pastagem, o governo dos estados do Sul do Brasil reservava lotes recobertos de floresta. Quando os ucranianos chegaram para povoar a colônia, em 1895, descobriram que o governo não havia cumprido sua parte e delimitado a área. Os lotes prometidos deveriam ter em média 25 mil metros quadrados, um tamanho adequado para a disseminação do modelo de lavoura familiar. Engenheiros e agrimensores contratados para a medição e atribuição de terras aceitavam de bom grado o auxílio dos imigrantes para abrir picadas na mata, fixar marcas e medir espaços. Enquanto participavam desse processo, os ucranianos ficaram acomodados em barracões coletivos.

Como o governo pretendia organizar colônias multiétnicas, os barracões abrigavam não apenas ucranianos, mas alguns alemães e italianos e muitos poloneses. Viver dessa forma promíscua era com certeza desagradável. No entanto, a vida teria sido mais fácil para os ucranianos se houvesse apenas pessoas que compartilhassem seus dialetos e rezas nesses barracões. Tal observação se aplica, sobretudo, no caso da convivência com os poloneses.

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Existia na Galícia uma relação muito íntima entre crença religiosa e identificação étnico-cultural. Embora tanto os ucranianos quanto os poloneses da região fossem católicos, os primeiros professavam sua fé segundo os princípios, a liturgia e o calendário do rito grego, enquanto os poloneses o faziam de acordo com o rito latino. Tal diferença teve origem no grande cisma (cisão de uma igreja ou comunidade religiosa) do oriente, em 1054, que dividiu a cristandade em latina (sede em Roma) e ortodoxa (sede em Constantinopla). Devido a um acordo feito em 1596 pelo papa Urbano VII com uma facção dissidente do clero ortodoxo ucraniano surgiu a Igreja Católica Ucraniana de rito grego, ou os uniatas, que, apesar de unida a Roma, manteve autonomia em sua organização interna e rito religioso.

Primeira escola ucraniana, da sociedade “Prosvita” em Curitiba, no ano de 1909. Na sala de aula, mapas do Brasil. Vindos para ficar, imigrantes procuravam preservar sua cultUra e conhecer mais seu novo território.

Em Antônio Olinto, os ucranianos reproduziram essa divisão religiosa/cultural presente na Galícia. Passaram a usar a religião que professavam como símbolo que os distinguia dos outros grupos. A diferença cultural, principalmente quanto aos poloneses, serviu para os ucranianos elegerem valores que demarcaram seu próprio círculo de pertença étnico. Vale frisar, porém, que esse movimento foi orquestrado por leigos, pois a comunidade só teve pároco fixo a partir de 1911.

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Como se não bastassem a falta de recursos e rusgas com os poloneses, havia em Antônio Olinto a ameaça de doenças tropicais e a animosidade dos indígenas da região. À medida que se concluía a medição dos terrenos, famílias ocupavam os lotes. Mas o avanço mata adentro decorrente desses assentamentos gerava conflitos com os nativos. Os “botocudos” por vezes respondiam à crescente interiorização atacando e até matando os europeus.

Apesar de todas as agruras, o clima provavelmente chegou ao auge da tensão em meados de 1896, quando o governo anunciou a suspensão do fornecimento de alimentos àqueles que ainda permaneciam nos barracões. Eram 827 pessoas que estavam ali havia oito meses, entregues à própria sorte e sem representação oficial, pois o consulado austro-húngaro só iria se estabelecer em Curitiba em setembro de 1896. Sentindo-se injustiçados amotinaram-se em julho de 1896, obrigando o governo paranaense a destacar forças policiais para acalmar os ânimos. Os líderes do movimento se refugiaram temporariamente na floresta. Resolvida a questão, voltaram à colônia e ali viveram o resto de suas vidas.

Foram tempos difíceis. Nos seus lotes, com tudo por fazer, viviam em pequenos ranchos cobertos com folhas de árvores e se alimentavam com o que fosse possível arranjar. Cruzes espalhadas pelo território são indícios da ajuda que os imigrantes devem ter pedido aos céus nessa época. O sentimento religioso sempre se fez presente de forma incisiva. Tanto que as mulheres da colônia ofereceram colares de coral – adorno muito valorizado pelo grupo – para enfeitar a padroeira da igreja ucraniana local. Desde então, ela ficou conhecida como Nossa Senhora dos Corais.

Ao lado da religiosidade, os imigrantes também trouxeram da Galícia um imaginário mágico povoado por seres fantásticos, dos quais procuravam se defender usando a luz (ver abaixo). Devido ao isolamento em que viveram em Antônio Olinto, puderam recriar costumes e formas de convívio que lhes eram caras.

005No conjunto, a comunidade zelou pelo princípio segundo o qual relacionamento sexual e filhos são decorrências do casamento. Ao longo de quatro gerações, conta-se nos dedos o número de moças que casaram grávidas, e foram poucas as crianças registradas apenas com o nome das mães. Apesar de raras, cabia às mães solteiras triste sina. Não podiam usar tranças típicas de donzelas, apenas um lenço que assinalava o estatuto de mulher casada. No entanto, não se perfilavam ao lado das casadas nem das solteiras. Na igreja, ficavam no babenétz, local mais distante do altar, onde não havia bancos ou genuflexórios. O repúdio às mães solteiras decorria da crença segundo a qual a vida humana não podia ser solitária. Dependia de uma trama de compromissos mútuos, dentre os quais o familiar seria essencial.

A comunidade partilhava dos atos ligados à formação de novos casais. Com relação a esse assunto, os pioneiros respeitavam os conselhos do stárosta (casamenteiro), que se encarregava da negociação matrimonial entre os pais dos jovens. Todos se agitavam nos dias próximos à celebração. A noiva, com guirlanda de flores e fitas na cabeça e acompanhada por solteiras – as drujke -, percorria a colônia formalizando convites. Para a festa, os homens se ocupavam do preparo das carnes; as mulheres, dos doces e massas. Para elas, o mais importante era o korovai. Trata-se de um grande pão doce que recebe no centro adornos em forma de lua e estrela, o símbolo do casal segundo a tradição popular ucraniana.

Os matrimônios ocupavam no mínimo três dias de comemoração. Nessas ocasiões, as pessoas se divertiam ao som de bumbos, rabecas e foguetes. A aridez da vida se dissolvia na dança, na bebida e nas kolomeikas, cantigas populares irreverentes. Para os pioneiros, casamentos significavam a preservação dos princípios da organização familiar que dava sentido às suas vidas.

Representantes de uma cultura camponesa, os ucranianos valorizavam ter filhos. Somavam ao fato a noção cristã segundo a qual a família se completa com a descendência. Por esse motivo, julgavam sensato ter prole numerosa, com sete, oito, nove e mais filhos. A cada geração aumentava a necessidade de os filhos crescidos migrarem, visto que não havia terra para tantos. Embora a migração para outras localidades fosse o destino da maioria, um dos filhos, em geral o mais novo, ficava para cuidar dos pais idosos. Desse compromisso entre as gerações decorreu o hábito de coabitarem avós, filhos, noras e netos. O convívio entre gerações nem sempre transcorreu de forma harmoniosa, mas predominou por quase um século.

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O contato com a sociedade paranaense a partir da década de 1960 com a interiorização da rede viária provocou mudanças em Antônio Olinto. A tradição camponesa começou a perder espaço para novas maneiras de perceber a realidade. Nos dias atuais, os jovens se sentem desconfortáveis com a cobrança de obediência irrestrita por parte dos mais velhos. Além disso, os que não conseguem se lançar em novos horizontes têm optado por famílias nucleares (apenas os pais e os filhos). Nem todos compartilham a noção segundo a qual uma prole numerosa representa “uma bênção de Deus”. Novos pais admitem dificuldades para ter muitos filhos. Para a geração atual de mães, três filhos são a descendência ideal. Sem contar que o tema “cesariana” tem aparecido entre mulheres mais moças, um tanto céticas sobre a eficácia de velas, fitas e invocações na hora do parto.

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Com relação ao casamento, observa-se uma redução dos rituais ancestrais ligados ao matrimônio. Os que casaram nas últimas décadas, por exemplo, não mencionam mais o stárosta com naturalidade. A interferência do casamenteiro é apenas, com certo incômodo, confirmada. Embora o casamento continue sendo motivo de comemoração, não é mais celebrado pela comunidade inteira. Agora, os pais da noiva recebem convidados. Os jovens, por sua vez, se sentem livres para escolher os parceiros, mesmo que essas pessoas não pertençam à mesma etnia, algo impensável para as gerações dos seus avós.

Carta de um imigrante

Com a Carta do Brasil, escrita em 1895, Iwan Frankó (1856-1916) narra a saga de quarenta pessoas que migraram para o Brasil.

“Vizinhos! – é Olécia que está escrevendo.
Saúde boa e bem vai se vivendo.
Faz sete meses que silenciamos.
No fim de tal destino já acampamos.
Vivemos em florestas, em cabanas,
e imensamente, estamos trabalhando.
Vivemos juntos, não nos separaram.
da vila, quinze léguas nos distaram.[
Na mata, sob montanhas… não chiamos.
Não há estradas, trilhas palmilhamos.
Brasil! Também se sofre nessa terra:
pegou-nos logo a febre amarela.
Em três meses na Ilha das Flores
morreram três mulheres e três homens.
Vendemos como servos cinco moços,
àquelas casas foram cinco moças.
Dos moços não tivemos nem notícia.
As moças comem, bebem… quê “delícia!”
Que mais escrevo? Novas não alardam.
De cobras cinco nossos se finaram.
Aqui anda um povo rude pelo mato
que mata e come a gente. Fuja deste fato.
Se Deus quiser, e nós nos recompormos
quarenta fomos, em dezoito somos.
É pena que rezar nem conversar
não querem em ruteno nos deixar,
Na vila Kandziubinski assim gritou:
“Aqui não se fala em ruteno, não!
Polacos são o rei, o país e Deus!
Falar em polonês ou calar de vez!”
Fazer o que com tal intimação?
Que assim seja. Qual a salvação.
Aqui termino. Adeus.
E de ora tereis mais novas se luzir melhora.”

Lembranças do universo mágico

Os ucranianos trouxeram um universo de seres fantásticos para o país. Dentre as entidades mais presentes no cotidiano de Antônio Olinto estavam o lovison (lobisomem), as mavkas e borenhas (bruxas) e o tchort (diabo). Segundo a crença trazida para a colônia, o lobisomem podia nascer como tal ou transformar-se por ação de encantamento. Acreditava-se que os lobisomens enfeitiçados viviam na mata sob a forma de lobo ou de porcos, visto que no Brasil não havia grande quantidade de lobos. Já os nascidos lobisomens viviam entre a família e só se uniam aos demais em determinadas ocasiões para matar o gado. Casamento entre padrinhos e madrinhas poderia gerar filho lobisomem ou filha bruxa.

Outra entidade sobrenatural bastante popular era a mavka, ser nos quais se transformavam os bebês nascidos mortos ou aqueles que haviam morrido sem batismo. A mavka tinha o aspecto de uma linda jovem, que voava sob a forma de ave, implorando batismo. Se o apelo não fosse atendido até que completasse sete anos, ela se transformaria em definitivo num espírito maligno.

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Moradores da comunidade de Antônio Olinto destacaram outros seres das trevas que sofreram adaptações em sua versão brasileira: a marra, o zmii e o tchort. Para os ucranianos na Europa, marra era a personificação da deusa do mal que tiranizava as pessoas sob a forma de um fantasma. Os pioneiros, por sua vez, consideravam-na um agente do mau que agia à noite. Enquanto na tradição popular ucraniana o zmii representava o dragão medieval que matava os homens, raptava jovens e mulheres e queimava aldeias, no Brasil ele virou uma cobra. Só que essa cobra servia para designar tanto uma coisa como uma pessoa má. Por fim, tchort era Lúcifer, o demônio, e representava todas as forças inimigas do homem. Em Antônio Olinto, o diabo assumiu uma representação mais popular. Era uma divindade suscetível à adulação e passível de ser enganada. Além do próprio tchort, havia a tchortela, sua mulher.

Em meio a tantas figuras demonológicas, os pioneiros se defendiam por meio de uma relação muito íntima com as forças da luz. A lamparina, o lampião e posteriormente a luz elétrica ajudavam a estabelecer essa defesa. Os quartos das casas eram voltados para o leste, a fim de receber os primeiros raios do nascer do dia. Em Antônio Olinto, era comum manter o quarto do neném iluminado, do contrário a coruja viria buscá-lo. Em caso de suspeita de alguma entidade sinistra, moradores queimavam ramos bentos para purificar o ambiente. Esse simbolismo de purificação pela fumaça continua presente na cultura ucraniana. Ainda hoje, toda a celebração da missa transcorre com queima de incenso.

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Na tradição popular ucraniana, vida e morte não representavam pares opostos. Fiéis a esse preceito, até a primeira metade do século XX, vários habitantes de Antônio Olinto não consideravam a morte uma ruptura definitiva do convívio familiar. Na visão deles, as almas continuavam pelas imediações da casa, ajudando os vivos a cultivar a terra. E no ritual do diduch – véspera de Natal – os falecidos eram convidados para confraternizar com os vivos. Guardava-se um lugar à mesa para os mortos e, na manhã de Natal, toda a família corria para ver se as almas haviam comido a refeição deixada para elas.

História ao vivo em Curitiba

natalQuem quiser conhecer mais sobre a história dos ucranianos no Brasil deve visitar o Memorial Ucraniano, no Parque Tinguii, em Curitiba. O Memorial foi inaugurado em 1995, ano do centenário da chegada desses imigrantes à capital paranaense. Conta com uma réplica da Igreja de São Miguel Arcanjo, bem como uma típica casa de madeira com loja de souvenirs em seu interior, um palco ao ar livre e um portal. Todas as construções são feitas coem madeira encaixada, segundo o estilo ucraniano.

A réplica da Igreja de São Miguel segue o estilo arquitetônico bizantino, característico das igrejas ortodoxas eslavas. Apresenta uma enorme cúpula oitavada de bronze e um campanário externo. Sem função religiosa, exibe em seu interior ícones religiosos e pessankas – ovos inteiros e crus decorados à mão com motivos místicos e arte ucraniana.

* A autora, Maria Luisa Andreazza, é professora de História da Universidade Federal do Paraná e autora de “Paraíso das delícias: um estudo da emigração ucraniana (1895-1995)” Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1999.

Para saber mais:

  • BORUSZENKO, Oksana. Os ucranianos. 2ª ed., Boletim Informativo da Casa Romário Martins. Curitiba, v. 22, nº 108, Out. 1995.
  • BURKO, Valdomiro N., A Imigração Ucraniana no Brasil. Tese de especialização jornalística, defendida na Universidade Internacional de Estudos Sociais Pró Deo em Roma. Curitiba: s/e. 1963.
  • Site: www.Parques-Curitiba.com/memonal-ucranianos-imigrantes.html