» O Natal entre os Ucranianos

Elaborado por: Pe. Daniel Kozlinski

Natal, data magna da cristandade, representa para todos a festa do nascimento do Menino-Deus, o Messias, o Enviado, Jesus Cristo.

Cada nação tem as suas particularidades, costumes e tradições nas celebrações deste evento. Na Ucrânia isto não é diferente. O Natal é uma festa muito rica, de vários costumes, populares e religiosos, que engrandecem e enaltecem o acontecimento.

Os ucranianos na pátria mãe e em alguns lugares da diáspora, seguem o Calendário Juliano, distinguindo-se bastante já neste porém, em relação ao calendário da Igreja no ocidente, de Rito Latino. Por isso, na Ucrânia, o Natal é festejado no dia 7 de janeiro. Entre os ucranianos no Brasil, os Católicos seguem o calendário gregoriano, os Ortodoxos, seguem o calendário juliano. Embora a diferença de calendário, os costumes e tradições, tanto religiosas como populares, são mantidas por ambos, com muito respeito.

A festa do Natal é precedida por um período de preparação

Inicia-se no dia 27 de novembro (14 de novembro no calendário gregoriano) festa do Apóstolo São Felipe. Chama-se este período de “Pelêpivka”. Este tempo é realçado por um período de jejum e penitência, na espera do tão almejado hóspede, o Filho de Deus.

Durante este tempo de preparação para o Natal, um momento importante é a celebração da Festa de São Nicolau. No calendário gregoriano, dia 06 de dezembro, no calendário juliano, dia 19 dezembro. São Nicolau é um dos santos mais populares na Ucrânia, embora seja natural do Oriente Médio (cidade de Izmirna, hoje na Turquia). Bispo da Igreja, sempre se destacou pela suas obras de misericórdia e amor fraterno ao próximo. Estes seus gestos sempre tocaram os corações, por isso, são vários os ícones que representam este constante culto a ele prestado em todo o Oriente. Entre os ucranianos, é considerado o patrono dos agricultores, defensor dos animais, patrono do inverno. Porem, acima de tudo, é o patrono das crianças. Por isso, no dia de São Nicolau, costuma-se realizar a troca de presente entre as pessoas, e presentear, de um modo especial, as crianças. Quem entrega os presentes para as crianças? O próprio São Nicolau. Ele é representado em suas vestes de Bispo oriental, uma pessoa idosa, meiga e carinhosa para com as crianças. Geralmente é acompanhado pelos anjos, que trazem os presentes a serem distribuídos. Representam a bondade, a generosidade, o bem. Porém, na representação de São Nicolau, aparece também a representação do mal, atraves de uma pessoa mascarada que representa a tentação, o vício, a desordem, o pecado. No diálogo com as crianças, as perguntas dirigem-se em forma de um questionário sobre o bem que elas praticaram ou podem praticar. O presente é a recompensa pelo bem praticado. No ocidente, São Nicolau foi substituído pela figura do Papai Noel.

Um significado todo especial para a véspera de Natal entre os ucranianos é a realização da Santa Ceia. Ela encerra o período da “Pelêpivka”, quaresma de preparação ao nascimento do Filho de Deus. É a festa da família. Reúnem-se todos para a ceia, na celebração de um ritual todo especial. Inicia-se a preparação com a limpeza da casa, tudo deve estar bem asseado para a visita dos familiares, pois juntos estão à espera do hóspede maior. A dona da casa deve estar, neste dia, atarefada com a preparação dos pratos do ritual que serão consumidos durante o jantar. No interior, nas colônias, o dono da casa deve cuidar da sua “hospodarka”, a propriedade, procurando fazer a limpeza de todos os espaços de sua “fazenda”, alimentar bem os animais, pois eles também fazem parte da realidade da casa.

Ao entardecer, todos os membros da família devem estar reunidos. Como deve estar preparada a casa e a mesa da ceia?

Prepara-se a “ialenka” – árvore de Natal. Qual o seu significado? A árvore sempre indica para o alto. Lá em cima, deve estar presente a estrela. Ela indica o caminho. Assim como foi para os magos do oriente. Ela nos guia para o Deus que vem, que é e que será presença entre todos. A árvore é enfeitada com vários adornos, entre estes, os doces, que serão depois apanhados por todos e consumidos. São dádivas, presentes de Deus derramados sobre a humanidade através do Filho Jesus.

Quando todos estão já reunidos, o dono da casa – hospódar – traz um feixe de trigo, para dentro da casa. Dá-se a este feixe de trigo o nome de “didukc”. Representa ele os antepassados, os falecidos, bem como a fartura, a boa colheita, o progresso, o bem estar das pessoas. O “didukc” é trazido para dentro de casa como um ritual sagrado, com respeito e colocado, então, em um lugar de destaque, anteriormente preparado. A mesa da ceia natalina é forrada com o feno, coberto depois com a toalha bordada. Que representa este feno? A “mangedoura” onde será colocado o Menino. Como a mesa farta, assim também o Filho de Deus trará as bênçãos para todos na família. Deve ser ele acolhido com o calor humano das pessoas, no relacionamento familiar, na unidade e bem estar. No assoalho, sob a mesa, coloca-se a palha de trigo, junto com os instrumentos do trabalho do campo: o machado, a enchada, o “serp”(instremento para a colheita do trigo), entre outros. São ali colocados, pedindo, para que em toda a propriedade estejam presentes as bênçãos de Deus. A ceia está pronta. Ela deve ser servida quando a primeira estrela aparecer no céu. No inicio, o dono da casa convida a todos para ceia. Todos devem estar presentes. Fazendo a oração pela família, o “hospodar” – o dono da casa – saúda a todos com as palavras: Xrestós Rodêucia – Cristo nasceu. Todo respondem: “Slavimo ioho” – Glorifiquemo-lo. Em seguida, o “hospodar” serve, para todos os presentes, um pequeno pedaço de pão embebido no mel. Que a vida familiar seja sempre alegre, unida, vivida no bem estar humano e espiritual. Em algumas regiões da Ucrânia e em algumas famílias aqui no Brasil, o dono da casa convida para a ceia também “as tempestades, as enchentes, o granizo, as geadas, os ventos”. Espera-se em silêncio. Como não se sente a resposta, o dono da casa responde: “como as tempestades, as enchentes, o granizo, as geadas, os ventos, não foram dignos de aceitar o nosso convite para a ceia, que também não apareçam durante o ano, quando não convidados”.

Em seguida, serve-se a ceia. Ela é composta de 12 pratos. No passado, representavam eles, os doze meses do ano. No cristianismo, os doze apóstolos, discípulos do mestre que anunciam a sua mensagem. Cada cristão deve anunciar o bem, testemunhando a doutrina do Mestre Jesus.

Eis alguns dos pratos que devem ser servidos:

  • Kutia – trigo cozido, servido com mel, passas de frutas e nozes.
  • O trigo representa a fartura, o progresso, o bem estar.
  • O mel, que a vida deve ser temperada com a alegria da saúde, do bem estar, na amizade, na unidade familiar.
  • Borsctch – sopa de beterraba e repolho, servida com pão de centeio.
  • Mletzi – pastéis pequenos, tipo ravioli, com recheios diversos, que são servidos com o “borchtch”.
  • Varéneke – espécie de pastel com recheio de requeijão, batatinha amassada ou repolho, cozido em água fervente.
  • Holobtsí – espécie de “charuto”, com trigo sarraceno enrolado com folha de repolho. É cozido no vapor ou em “banho maria”.
  • Kryjalhkê – espécie de repolho cozido, temperado com água, sal e iguarias.
  • Peixe em conserva.
  • Várias espécies de pão.
  • Kacha – espécie de cevada moída, preparada com iguarias.
  • Hrebê – espécie de cogumelos cozidos, preparado em forma de salada ou em forma de molho, para ser consumido junto com os demais pratos.
  • Kolatchi – espécie de rocambole com rechei de doces de frutas.
  • Kompot – suco de passas de frutas, servido como bebida.

A ceia deve ser preparada com produtos não gordurosos que possam representar a água, o ar e a terra, pois ainda nos encontramos no período de quaresma “pelêpivka”. Ela só encerra-se à meia noite, quando da participação de toda a família na Divina Liturgia na Igreja da Comunidade.

Durante a Ceia, inicia-se os cantos natalinos – Kolhadê. Eles nos falam do nascimento do Menino Jesus. A alegria deve ser contagiante neste momento da Ceia. Cada um saúda os presentes, iniciando uma Kólhada. Elas continuam até o final da Ceia. É comum em todas as famílias deixar sempre um lugar a mais preparado durante a ceia. Este lugar pode representar algum familiar ou amigo que não tem a possibilidade de estar festejando o Natal em uma família, bem como representar aqueles que se passaram desta terra para a eternidade: eterna é a lembrança deles entre todos.

Quando todos terminam a ceia, saem para a participação da liturgia na Igreja da comunidade. Nada se retira da mesa. Ela deve permanecer assim, pois a crença diz que os “ausentes” virão tomar a sua parte na refeição da ceia.

Na Igreja, na celebração litúrgica, ouve-se muito as “kolhadê”, canções natalinas. Todos cantam e saúdam-se com a saudação típica para a festa do Natal: Xrestós Rodêvcia – Slavimo Iohó. Cristo nasceu – Glorifiquemo-lo. As canções natalinas serão entoadas nas Igrejas até o dia 02 de fevereiro(calendário gregoriano).

Após a celebração na Igreja, grupos de pessoas, geralmente homens, organizam-se para visitar as famílias e saudá-las com o canto das “Kolhadê’. Vão de casa em casa. As famílias os recebem. São saudadas pelos cantores – “kolhadnekê”. Nesta saudação, deseja-se o bem estar para todos, o progresso huamno e espiritual, a saúde, a boa colheita… Geralmente estes cantores são recompensados, não apenas com as goluseimas costumeiras, mas também com uma recompensa em bens materiais, que serão destinados ao bem estar de toda a Comunidade.

Fontes: