» Imigração Ucraniana em Canoas

Início da Imigração em Canoas – RS

IDENTIDADE CULTURAL

Conforme Straus, o estudo da cultura de um povo requer do pesquisador, humildade, para reconhecer as limitações da impossibilidade de alcançar todos os dados, leis e princípios que dão a esse povo uma fisionomia particular. No entanto, há que se conhecer um mínimo de leis interiores e de forças exteriores, que atuam sobre a sociedade humana, para justificar suas atitudes e comportamentos distintos em relações a outros grupos humanos.

Fiz uma pesquisa em alguns livros aqui em nosso Município, que julguei não haver em outros Estados do Brasil. E encontrei no livro “Canoas Para Lembrar Quem Somos” uma matéria bastante interessante. Essa pesquisa teve por objetivo relatar como os Ucranianos vieram parar no Rio Grande do Sul, visto que, a maior colonização é no Paraná. O interessante é que há relatos de pessoas, onde mencionam as condições, e a forma essa migração aconteceu. Gostaria de ressaltar também, que há outros assuntos abordados no livro, como religião, irmandade feminina, e sobre nosso grupo de folclore, mas como falamos disso em outras ocasiões em nosso site, enfatizei somente o que diz respeito à chegada dos ucranianos ao Rio Grande do Sul e a construção de nossa comunidade. O texto é bastante extenso, mas é uma leitura muito agradável, apesar de certos momentos ser bastante triste.

Oliana Reszetiuk
Texto extraído do livro: Canoas Para Lembrar Quem Somos, Editora La Salle, Niterói – 1995

A chegada de ucranianos e Niterói, Rio Branco e outros localidades, deu-se a partir de vários pontos do nosso pais. Nem todos vieram diretamente da Ucrânia para Canoas. Foi em 1891 que chegaram os primeiros imigrantes ucranianos ao Brasil, cerca de 25 a 30 famílias, que radicaram-se no Paraná, atraídos por terras férteis oferecidas. Por volta de 1895 a 1896 o ciclo imigratório aumentou, trazendo mais de cinco mil famílias para aquele Estado.

Com a construção da estrada de ferro Paraná-Santa Catarina-Rio Grandes do Sul, a partir de 1908, os ucraninaos foram se espalhando pelo sul do Brasil. Sempre atraídos pelo convite do governo brasileiro, que pagava as despesas de transporte ealimentação, muito deles instalaram-se as margens da ferrovia, principalmente em ponta grossa, Mallet, Dorizon, Paulo Frontin, União da Vitória, no Paraná em alguma cidades de Santa Catarina. Houve também migração durante e após a Primeira Guerra Mundial.

Atualmente existem no Brasil em torno de 300 mil descendentes de ucranianos, dos quais 75% estão radicados no estado do Paraná. Os demais estão em Santa Catarina e especialmente no Rio Grande do Sul.

Em nosso Estado, os pioneiros foram os fugitivos da primeira Guerra Mundial, estabelecendo-se nos municípios de Santa Rosa, Ijuí, nos povoados de Pratos, Barra Seca e outros.

A primeira família de ucranianos a estabalecer-se em Niterói foi a do Nicolau Sydor em 1932. O Sr. Nicolau, esposa e filha vieram da Austro-Hungria, segundo eles “fugindo do comunismo” junto a um grupo de amigos e conhecidos. Em Porto Alegre alugaram um casarão, na Rua Azevedo para poder começar a vida. Ainda em 1932, o seu Nicolau e a família estabeleceu-se em Niterói. Precisou de um salvo conduto, que ainda guarda, para poder sair do município de Porto Alegre. “Quando cheguei em Niterói, não tinha quase nada. Tinha uma rua aberta e o sinal de outras por abrir. Para fazer a casa trouxe o material de Porto Alegre em um “reboquezinho” Segundo Liuba Sydor, filha de seu Nicolau: “o pai e a mãe deram muita ajuda a muitos ucranianos de vários levas que vinha da Ucrânia. Davam informações, ajudavam a procurar emprego”.

O estabelecimento de ucranianos em Niterói e Rio Branco tornou-se expressivo após a Segunda Guerra Mundial, especialmente entre os anos de 1945 e 1958. Leonid Cvirkun, outro ucraniano dá-nos sua versão sobre as razões da vinda para o Brasil: “Veio a guerra e a revolução Comunista, que acabou com a vida normal de minha família. Meu pai foi deportado para a Sibéria com 13 anos. Ficou lá, mas consegui fugir. Conheceu minha mãe em Donbás onde se casou. Eu nasci em 1936. Durante a guerra, os alemães avançavam e acuavam o povo, obrigando a quem morava aí a sair das aldeias. Quando o exército passava, saqueava tudo e mandava ir embora dali. O pessoal saía mas pensava que um dia haveria de voltar. Também não acreditava na paz. Mas, nós éramos refugiados e íamos adiante”.

Quando havia esse tipo de ocupação, os moradores recolhiam o que podiam, refere Leonid Cvirkun, desde pertences pessoais até carroças e animais domésticos. Era comum cada família levar pelo menos uma vaca para as crianças terem leite como alimento. “meus pais levaram uma vaca amarrada para tirar leite para minha irmã Lídia que tinha cinco dias. Quando chegamos na fronteira da Polônia com a Ucrânia, tiraram a nossa vaca e pagaram 100 carbólates, dinheiro ucraniano emitido pelos alemães. Era só para guardar, porque não valia nada”. Conta Ivan Kopichenko que numa dessas retiradas, a família dele e uma família polonese, foram confinados numa sala e todos cuidavam zelosamente de uma vaca, que à noite, após ser lavada era recolhida para a sala, a fim de não ser confiscada pelos alemães.

Quando a situação tornava-se mais precária, o exército recolhia os refugiados os animais e utensílio, deixando-os com os pertences estritamente pessoas que se resumiam a alguns embrulhos. Iam embarcando nos trens, sendo levados sem saber para onde. De acordo com Leonid “passamos pela Romênbia, Poônia. Mais tarde para a Áustria, depois Itália e por fim para Brasil. Naturalmente passamos grandes necessidades, especialmente falta de comida. Quando o trem chegava na estação, as mulheres recolhias pertences de algum valor, sapatos, meias e iam nas famílias próximas trocas por comida. Numa dessas paradas, algumas mães se organizaram e forma procurar comida. Ao penetrarem no povoado, o trem começou a andar lentamente, aos poucos pegou mais velocidade e se afastou. O desespero tomou conta dos que estavam no trem. Falavam, gritavam, gesticulavam para os alemães e nada acontecia. Não se entendiam por causa do idioma. Mas, felizmente, o trem foi retornando para o mesmo lugar. Ao retornar encontraram as mães desoladas e em prantos, muitas delas desmaiadas, achando que tinha sobrado para um infortúnio maior ainda. No reencontro os braços e. para festejar, um grande pão seco, liso, chegava a brilhar, duro e uma bola de manteiga, que tinha conseguido ! Era ruim de comer, mas a gente mandou assim mesmo. Para mim, prossegue Leonid, devido a minha idade, achava as estradas de ferro imensas, tinha lugares com 20 a 30 linhas e era trem para cá, vagão para lá. Na Polônia lembro-me, o trem parava dois a três dias. Parecia que o pessoal poderia fugir, não éramos presos, mas acontece que tudo era família e ninguém queria abandonar a sua família. Aquelas malas e sacolas ficavam junto.

Leonid acrescenta que, chegados num lugar, os homens foram mandados para um lado e, dependendo da idade os meninos permaneciam com o pai e as meninas com a mãe “ e passamos para fazer a desinfecção. Então os roupas rodas amontoadas com etiqueta eram atiradas como trapos. Todos passavam pelo exame dos alemães para ver se tinham piolhos ou outras coisas. Para mim tudo era festa. As mulheres, que tinham cabelo longo e bonitos, cortavam tudo a zero. Todos passavam naqueles banhos quentes. Depois todos em fila, recebiam aquelas banhos quentes. Depois todos em fila, recebiam aquelas roupinhas que passavam pelos vapores e eram devolvidas. Todos vestiam novamente. As mulheres de cabeça raspada choravam que dava pena! Os homens não era tanto. Na saída todas ganhavam mais uma baforada no cangote. Acho que era pó de gafanhoto, porque cada vez que percebo este cheiro, vejo que é idêntico àquele. Isso acho até que era válido prorque estavam cuidando da parte higiênica. Fomos indo, fomos indo. Acabamos na Alemanha. Uns foram mandados para cá, outros para lá. Só lembro que numa noite estávamos viajando de ônibus. Levaram meu pai e minha mãe para trabalhar numa olaria perto de Ro Elba. Era grande indústria.

Morávamos num prédio de dois pisos, era a nossa família e uns poloneses solteiros. Meu pai e minha mãe tinha que trabalhas, amassar o barro e eu tinha que cuidar de minha irmã que era pequena ainda. Ali era muito frio e úmido. Peguei uma pneumonia que quase morri. Então, nos transferiram para uma colônia agrícola onde até melhorou um pouco a nossa vida. Mas os bombardeiros foram aumentando. Às vezes passamos a noite em claro. Chegou um dia que levaram embora o pai. Ficou meses fora. Não tínhamos mais esperança que ele voltasse. Numa certa noite apareceu em casa. Disse que todo esse tempo teve que trabalhar escavando trincheiras como preso. Mas, no auge da guerra, tudo foi para os ares e ele conseguiu fugir. Em casa, de dia ficava no mato para não ser recolhido de novo. Ficou assim até que a guerra terminou”.

Terminada a guerra, muitos ucranianos, russos, poloneses, bielorussos começaram a organizar os chamados “campos de repatriação”. Muitos queriam voltar para a pátria de origem. Explica Leonid que “meu pai não queria voltar. Só sei que acabamos em Hanover, num campo de ucranianos chamados de “Campo Lisenko”, fundado pelo professor Podilski. Lá tinha colégio. Estudei até o quarto ano”. Foi em 1947 que os componentes deste “Campo Lisenko” começaram a emigrar para diversos países como França, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Argentina e Brasil.

Depois da guerra, a maioria não tinha documentos. Conta Leonid que nos documentos constava como sendo polonês de Westok. Prossegue dizendo que, quando fio embarcar para o Brasil e foram feitos os documentos, os ingleses batiam á maquina escrevendo o nome como ouviam, sem maiores preocupações Leonid relata que “ um dia fomos com a família defronte o representante do governo brasileiro que viu convidar o pessoal para ir ao Brasil. Aí muitos do Campo Lisenko, um campo de ucranianos, resolveu vir para o Brasil”.

Geralmente o desembarque os imigrantes se davam no Rio de Janeiro. Depois seguiam para a Iha das Flores. Dali partiam para diversos lugares do Brasil. Os que vinha para o Rio Grande do Sul desembarcavam no cias do Porto, em Porto Alegre. Aqui, para a maioria, começava a parte angustiante da sobrevivência. Jogados à sua própria sorte, cada qual pegava “a ponta” que surgisse para poder iniciar.

Ivan Kopichenko, ao ser abordado sobre o porquê da saída da Alemanha, após a Grande Guerra, responde que “ foi para procurar vida nova e melhor” “O Consulado Brasileiro explica o que tinha no Brasil e a promessa era de que todos trabalhariam na terra, mas quando chegávamos ao lugar de destino deparávamos com outra realidade” Aqui no sul, uns conseguiam trabalhar em fazendas, outros nas minas de carvão, em Butiá, outros em empresas. Em 1948 quando chegou a Porto Alegre, Ivan Kopichenko logo procurou emprego. Alugou uma casa e após sete meses conseguiu comprar um terreno e construir uma casa. Isso foi possível porque era carpinteiro empregando-se na construção da ponte sobre o Rio Cai, em Montenegro. A mãe bordava e vendia os seus bordados.

Leonid Cvirkum lembra que viajava 14 dias e 14 noites para chegar ao Brasil “ quando chegamos na costa do Rio de Janeiro, todo mundo achou a coisa mais engraçada. Todo mundo vinha preparado para entrar no mato. Traziam enxadas, martelo, foice, pregos velhos e outras ferramentas. Quando chegaram perto e viram aqueles prédios, aquela beleza, acharam que houve um engano e que estariam chegando em Nova Iorque e não no Brasil” Ficaram três meses no Rio de Janeiro “ Logo que chegamos chamaram o pessoal e perguntavam para onde queriam ir. Mas ninguém convidada ou oferecia trabalho na colônia. Estávamos esperando que íamos trabalhar na roça e logo vimos que não era nada disso. Praticamente forçaram para ir para São Paulo, para onde foi a maioria. Meu pai e outros, todos amigos, decidiram não ir para São Paulo. Ficamos mais dez dias porque não queríamos ir para o Rio Grande do Sul porque o clima é mais frio e igual ao da Europa”.

Viajaram sete dias para chegar á Porto Alegre. Na cidade de Santos. O diário da Notícias, fez uma grande reportagem recebendo os refugiados com uma festa, onde as crianças ganhavam presentes.

Ao chegarem em Porto Alegre, conta Leonid foram jogados no depósito do refeitório do cais do porto. Ali recebiam o café da manhã, o almoço. Mas ficaram poucos dias. Os homens adultos saíam e apesar de não saber falar o português, foram se virando achando algum patrício que indicava uma coisa ou outra. “ Meu pai e minha mãe conseguiram emprego na Frigosul. Foram trabalhar nas câmara frias. O Frigosul aceitava estrangeiros nesta função pois era difícil de ser preenchida devido as condições da temperatura. Como os recém chegados topavam qualquer parada, lá foram os meus pais e ficaram satisfeitos”. Em função deste emprego conseguiram morar no Pombal do Frigosul, no Rio Branco. “Eram duas peças em cima de toco de eucalipto alto porque o lugar era alagadiço. Era quarto, sala, cozinha e uma areazinha. Alguns ucranianos daqui foram para outros lugares como por exemplo para o Paraná, Estados Unidos e Canadá. As famílias se correspondiam fornecendo informações sobre a nova vida. Mas a razão que motivou muitos a ir para os Estados Unidos, foi que nos anos 60 houve muita agitação política. O receio de cair novamente nas mãos do comunismo fez com que muitos se organizassem e saíssem. Outros foram simplesmente porque tinha esperança de uma vida e conômica melhor.

Hoje a comunidade ucraniana tem sua sede na Rua Protásio Alves, 454 – Niterói – Canoas. Tudo gira em torno da Paróquia da santíssima Trindade que reúne em torno de 60 famílias.

Foi em 1949 que se formalizou o início da comunidade com a construção da igreja. Neste ano veio uma nova leva de ucranianos que, logo, começaram a se preocupar com a vida social e religiosa, mesmo enfrentando grandes dificuldades iniciais, especialmente as financeira porque não tinha emprego. Havia a preocupação de que as crianças não perdessem os hábitos e costumes.

Em 1951 foi organizada a primeira diretoria para dar início efetivo à construção da nova igreja. Esta diretoria estava encarregada de formalizar o empreendimento, desde a aquisição do terreno, tramitação legal e a própria construção. Fizeram parte da primeira diretoria os senhores: Miroslaw Tronovetzki, Diácomo Bachnilski, Gregori Simonenko, Alexander Koval, Fedir Kovalenko, Kirilo Schwetz, Ivan Kopichenko, Ivan Janowski, Josef Olefirenko, Ivan Berutzko e Vacil Tymtchenko.

Grupo de teatro na década de 50

A igreja da Comunidade, inicialmente teve outra fachada, conforme verifica-se em fotografias. Quando Ivan Lisenko foi presidente da comunidade, foi feita a reforma resultando fachada que existe hoje, mas ainda sem a imagens da Santíssima Trindade que foram acrescentadas na gestão de Simon Sienko. Logo que a primeira comissão foi empossada, em 1951, enviou-se correspondência para os estado Unidos para Metropolia Johan Teodorovich pedindo um padre para que viessem assistir o povo. A resposta foi que não havia padre disponível.

A comunidade continuou sem padre. Mas no ano de 1952 veio a Porto alegre, proveniente de Curitiba, o padre Alípio Hasvic que rezou algumas missas na casa do Sr. Ivan Kopichenko voltando logo, entretanto, a Curitiba. O Sucessor foi o padre Andrew Lisenko que ficou prestando serviços até o ano de 1954. Com o padre Lisenko a construção da igreja adiantou-se muito.

Em 1955 foi feita eleição para a formação de uma nova diretoria, elegendo-se o presidente Sr. Iwan Kopichenko. Imediatamente foram tomadas providências para conseguir um padre. Veio o padre Butke, que até a sua partida para os Estados Unidos em 1957, trouxe estímulo ao desenvolvimento e avanço de toda comunidade. Após este período, veio o padre Petró Manchenko que permaneceu até 1963. Fez os acabamentos internos e instalou o sino que pesa 220 quilos. Em 23 de fevereiro de 1964 Michail Dembiscki assumiu a paróquia. Permaneceu até 21 de outubro de 1981, data de seu falecimento. Após este período, assistência religiosa era proporcionada um vez por mês um padre que vinha de Curitiba até 25 de agosto de 1990, quando assumiu definitivamente o Padre Eugênio Berbetz.

A comunidade é administrada por uma diretoria. Esta diretoria é responsável pela estrutura e funcionamento em todos os aspectos: o social, religiosos, financeiro e cultural. Alexandre Schwec, ucraniano radicado no Brasil em 1947 ei presidente desde 12 de dezembro de 1976.

O Sr. Alexandre Schwec foi responsável pela doação dos recursos necessários para a reforma da igreja, que havia sido construída de madeira. Conforme seu depoimento “ sempre quis fazer alguma coisa para a minha comunidade. Agora chegou a hora. Faço esta igreja e vou fazer outras reformas para que todos na comunidade ucraniana se sintam bem e possam progredir. Para mim, a pátria brasileira foi a mãe brasileira que nos acolheu, tive trabalho e suor, mas consegui vencer. Isto é fruto do trabalho. Com algumas economias faço isso como agradecimento a deus pelo que Ele tem proporcionado a mim, a meus familiares e aos outros também. É para que todos desfrutem disto”.

BIBLIOGRAFIA

  • Canoas: Para Lembrar quem Somos – Editora La Salle – 1995 – Niteroi Canoas/RS
  • 2000 Anos de Jesus – Publicado pela Igreja Ortodoxa Autocéfala Ucraniana – Eparquia da América do Sul
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